Antônia Rosa de Oliveira



Foi Assim...

A dor e a delícia de viver


Por
Antônia Rosa de Oliveira

Dedico estas páginas de vida à minha família, razão do meu viver, das minhas lutas e das minhas alegrias.

Capítulo I

O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
 Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.
Cora Coralina
Minha Família

Nasci, na Conferência em Resende Costa, no dia 3 de maio de 1933. Minha mãe se chamava Maria Rosa Sales, meu pai, que não cheguei a conhecer, pois abandonou minha mãe, quando ela engravidou de mim, segundo dizem, se chamava José Francisco.
Minha mãe era empregada doméstica e precisava trabalhar e não tinha como cuidar de mim, então, com sete meses, passei a morar com a minha avó, e minha mãe veio com meu irmão mais velho, Onofre Rosa Sales, para São João del-Rei.

Significado do nome
Origem do nome Antônia = Latim.  Significado: amiga inestimável.
De fato sou amiga de quem me quer por amiga. Dizem que as pessoas cujo nome começa com a letra A estão sempre prontas a se aventurar, que são muito cheias de energia, possuem uma personalidade ativa e decidida. Não vê graça numa vida sem desafios. Acho que tem a ver comigo sim, pois a minha vinda ao mundo já foi um desafio. Sempre enfrentei as adversidades com determinação, sem abaixar a cabeça.

Meninice em Resende Costa
Vivi minha infância e adolescência em Resende Costa, cidade da qual tenho boas e más lembranças.
Trata-se de uma cidade pequena, porém muito bonita. Um dos pontos turístico de lá são as lajes, de onde se pode observar um lindo por do sol. Além das festas famosas, a cidade é um ótimo lugar pra quem quer se divertir ou comprar artesanatos feitos no tear.

Batizado
Fui batizada na antiga Matriz de Resende Costa, por Jesus Mendonça e Marta Beatriz. Minha madrinha foi muito boa para mim. No meu aniversário e, ela sempre aparecia com presentes, como vestida ou tecida para confeccionar roupas para mim. Eu adorava ganhar presentes. Sonhava em ganhar uma boneca de louça, mas só ganhava aquelas de pano, que se pareciam com uma bruxa. Tinham os cabelos de fios, eu puxava até arrancá-los. Aí eu ficava de castigo por conta disso. Às vezes, levava umas boas palmadas. Eu não era uma criança muito quieta não. Eu aprontava bastante.

Antiga Matriz de Resende Costa. Em 12 de dezembro de 1749, foi inaugurada a primeira capela do arraial da Laje. Ao seu redor construíram-se oito casas pertencentes a fazendeiros que vinham para o arraial em ocasiões de festas religiosas. As primeiras famílias transferidas para aquela região foram as de Resende Costa, Alves Preto, Pedroso de Morais, Pinto e Lara, achando-se elas ligadas entre si por laços de parentesco. Em 3 de abril de 1840, foi criado o distrito, que recebeu o nome de Nossa Senhora da Penha do Arraial da Laje, em homenagem à sua padroeira. A expressão da Laje se explica pela posição topográfica do município, pois a cidade está construída em cima de gigantesca pedra, que se salienta em três picos mais elevados.
 Foto disponível emhttp://kigracinhartesanato.wordpress.com/category/pagina-inicial/fotos-de-resende-costa/.


Capítulo II

Não se acostume com o que não o faz feliz,
 revolte-se quando julgar necessário.
Fernando Pessoa

Vida escolar


Na escola, de primeiro, as turmas eram misturadas ali no Grupo Escolar Assis Resende. Era o 1º ano junto com o 2º e o 3º. Tinha professora que castigava aluno botando prá ajoelhar no milho. Mas o castigo mais comum que eu me lembro era ficar em pé na porta, quando tomava chuva e chegava molhada, tremendo de frio, tinha de ficar em pé na porta até a professora deixar entrar.
Essa professora era muito bonita, com cabelos louros, muito compridos escorrendo pelas costas ou preso em tranças. Mas o que ela tinha de bonita, tinha de chata, pelo menos comigo. As professoras não gostavam muito de gente de cor escura como eu, elas quase não davam atenção, a não ser para colocar de castigo. Lembro-me que, certa vez, umas meninas chatas que implicavam comigo levaram piolho na caixa de fósforo e colocaram na minha cabeça, aí comecei a coçar e a professora me xingou de piolhenta. Mas eu não era piolhenta, minha tia e minha vó, sempre cuidavam de minha higiene. Minha tia até mandou um bilhetinho para essa professora dizendo que cuidava de mim, que ela não se preocupasse. Essa professora parece não ter gostado de eu ter falado que ela me chamava de piolhenta.
Um dia, ela estava tomando a lição, e vi piolho passeando nas tranças dela, aí eu disse:
- a senhora me chamou de piolhenta, mas isso passeando na sua trança é piolho.
Ela ficou sem graça e, para se vingar, me mandou ficar ajoelhada sobre o milho, na sala da diretora, dona Ruth. Isso me deixava muito aborrecida, pois era uma injustiça! Minha madrinha, que era professora na mesma escola, me perguntou por que eu estava triste, aí contei para ela. Ela conversou com a diretora. Depois disso, as coisas melhoraram um pouco. Estudei até o segundo ano. Tinha muita vontade de aprender, mas ninguém me ensinava, na escola a professora não dava muita atenção para as meninas de pele escura, ela dava mais atenção para filhos de pessoas de posse. Lá em casa não tinha ninguém para ensinar, então, a gente ia ficando reprovada até desistir.
Dessa experiência escolar, pude sentir a dor do preconceito contra as pessoas de cor e sem posses. Eu me sentia culpada por não conseguir aprender, a passar de ano. Se alguém tivesse paciência para me ensinar, acho que seria diferente.
Graças a Deus, as culpas e mágoas passam! O tempo cura tudo: as coisas ruins que aconteceram, os dramas que rolaram e as palavras que feriram...

Capítulo III

Contação de histórias: mistérios

As histórias que ouvia quando era criança me intrigavam e me metiam medo, porque eram contadas como se fossem verdadeiras e eu acreditava que realmente fossem.
 Lembro-me de minha vó contar de duas antigas moradoras, duas mulheres que saiam à noitinha para rezar em um cruzeiro. Acho que era promessa, para livrar alguém de uma maldição, provavelmente o falecido que jazia sob o cruzeiro. Ninguém se atrevia a andar por aquelas paragens, após o por-do-sol, pois o local era assombrado, pela alma penada do morto e pelo Coisa Ruim que apossou ou queria se apossar da alma do dito cujo. Não sei por que as tais mulheres iam rezar lá, talvez para livrar a alma do falecido de alguma maldição, de alguma dívida com o Demo... Só sei que todos os dias, as duas saíam, no mesmo horário, com o terço na mão em direção ao tal cruzeiro. As pessoas avisaram que era muito perigoso, mas as duas não deram importância ao aviso, pois estavam protegidas.
 Certa feita, dois vizinhos resolveram pregar uma peça nas duas, ficaram à espreita, quando as duas saíram, eles foram atrás e se esconderam numa moita e, enquanto elas estavam rezando, eles colocaram uma peneira na cabeça e se cobriram com um lençol branco. Já estava escuro e ventava muito.  Quando as duas terminaram a rezação e se viraram, eles apareceram nas vestimentas fantasmais. O vento uivava, apagando as velas e deixando as duas despenteadas. Elas, muito assustadas, correram o mais que podiam em direção à cidade. As pernas bambas de pânico tremelicavam,  uma gritava com a outra;
- corre comadre, que o bicho é feio,
A outra respondeu:
- sim, mas o que está montado na cabeça deles é mais feio ainda.
Quase sem fôlego, as duas corriam, mas os perseguidores corriam também e quando estavam prestes a alcançá-las, elas viram que estavam em frente a casa delas e bateram com o crucifixo na porta... Por um breve segundo, tudo se fez silêncio, logo após ouviu-se um estrondo medonho e um fedor infernal de enxofre. As duas entraram e trancaram a porta, deixando os assombradores, mais assombrados ainda, do lado de fora.



Capítulo IV

Ser feliz não é uma casualidade do destino e sim uma conquista de quem sabe sonhar e também lutar pelo sonho...
Nayra Christiny

Vida Afetiva

Tive alguns namoricos sem muita importância, mas sempre procurei não me envolver, acho que tinha medo de acontecer comigo o mesmo que acontecera com minha mãe, de gostar de alguém e não dar certo, de ser abandonada...
 Então namorava escondido, mas nada sério. Tinha medo de um relacionamento afetivo com um homem, e um possível casamento.  Quando conheci (nome) em setembro, namoramos algum tempo escondido. Depois o apresentei à minha mãe, que por sinal gostou dele e aí percebi que era diferente e que ia dar casamento e já comecei a preparar o enxoval.
Naquele tempo, tinha que alvejar sacos de açúcar, depois bordar e fazer bicos de crochê.

Casei-me dia 22 de abril de 1965, na Igreja São João Bosco. Foi um dia de muitas emoções. Logo fiquei grávida de minha filha Cláudia Cristina de Oliveira.
Não queria ficar grávida logo, mas naquela época não tinha muito como evitar. A gravidez traz mudanças na vida da gente, além de componente emocional envolvido, das mudanças do nosso corpo que nos deixam inseguras. Acho que ficamos mais inseguras e sensíveis, cheias de dúvidas, será que vai nascer perfeita? Será homem ou mulher? Como vou fazer para trabalhar? Foi uma sensação diferente, me senti mais responsável, ia ter que cuidar de alguém que dependia dos meus cuidados para sobreviver.
Procurei cuidar dela o melhor que pude até ela se casar. Hoje tenho uma netinha linda. Tenho a sensação de que criei bem a minha filha, de que cumpri meu dever de mãe. E pude sempre contar sempre com o apoio do meu marido, que é um grande companheiro e está ao meu lado até hoje.

Trabalho
Desde que me entendo por gente, sempre trabalhei em casa e fora como empregada doméstica e trabalho até hoje.

A vida continua

A vida mesmo não sendo muito fácil tem seus encantos. Nunca me senti a coitada e sempre lutei por uma vida melhor. Hoje continuo a luta, mas já colhi muitos frutos: tenho uma filha criada e uma netinha maravilhosa que me enche de felicidade.
Vivendo agora na terceira idade com a mesma vontade e sempre querendo melhorar a vida dos que me cercam. O programa da terceira idade é uma boa oportunidade de encontros, passeios e tem ensinado como viver melhor nessa tal de terceira idade.

Boas lembranças
As lembranças de minha vó são muito boas. Eu dormia no cantinho da cama dela, me sentia protegida e amparada. Ela cuidava de mim, mas também era brava.
Outras lembranças, mais recente, foram as desfile que fizemos, só com o pessoal da terceira-idade, foi muito legal. Foram momentos especiais para mim, estar na passarela, toda produzida, até me senti bonita. Depois todo mundo ficou comentando que desfilei bem. Vou guardas as fotos e as lembranças desses momentos.

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