Universidade com a Terceira Idade
Maria Doroti de Resende Del-Vechio
Minha História de Vida
Maria Doroti de Resende Del-Vechio
Dedicatória
À minha família dedico essas páginas de relatos, lembranças de uma história e registro de minha memória. Dedico também ao meu marido, in memorian, por me ter proporcionado momentos de ternura, encantamento e muita felicidade.
Capítulo I
Minha Infância
As recordações se transformam em saudade
Recordar nossa infância querida
É uma forma de construir a nossa felicidade
Pois, tudo faz parte da vida.
| Minhas primeiras fotos |
Nasci no dia 18 de Junho de 1946, às 2h, no Rio Abaixo, município do Ritápolis, filha de Alberto Lino de Resende e Ermelinda Cipriani de Resende. Meus avós paternos foram Benedito Francisco de Resende e Maria do Rosário de Jesus e os maternos: Pedro Luiz Cipriani e Regina Ferrarezi Cipriani.
Meu nome
Meu nome foi escolhido por minha mãe por causa de uma atriz da década de 30, chamada Dorothy Lamour, que estampava propagandas de lençóis e colônias. Minha mãe admirava a beleza dessa atriz e por isso resolveu me dar esse nome. Fui batizada na Matriz do Dom Bosco,Quando nasci, minha mãe tinha 21 anos e meu pai 23. Eles moravam numa zona rural conhecida como “Rio Abaixo”, no município de Ritápolis. Meu pai trabalhava, com meus avós, na lavoura e garimpando minério. Assim que nasci, com poucos dias, eles vieram para São João del-Rei e papai foi trabalhar em uma Serraria , fazendo portas, janelas e móveis.
Morávamos numa casa em frente o serviço dele. Essa casa tinha cinco cômodos, muito simples, e ali nasceram meus três irmãos: Diomar, Dulce e Daniel, nessa ordem. Depois meus avós paternos vieram morar ao lado da nossa casa. Meus avós maternos moravam na Colônia do Recondengo. Eles eram lavradores e traziam verduras para vender e abastecer o Mercado da cidade. Fui criada neste meio, passando minha infância brincando nas cavas e valas, de onde tiravam minério.
Lazer e brincadeiras
Brincava com meus irmãos e primos. O Diomar, meu irmão, era quem fazia os carrinhos de madeira e sabugo. Fazíamos bichinhos de chuchu com palito de fósforo. Já minha irmã Dulce brincava de professora, eu e meu irmão Daniel éramos os alunos. Minha irmã, brava, gritava muito ao dar aula para nós. Aos domingos íamos visitar os parentes, nessas ocasiões, depois de almoço, aproveitávamos para brincar um pouco.
Na volta para casa, meus pais ainda traziam frutas, ovos e leite. Nos domingos, a família toda ia à missa e barraquinhas da Igreja. Minha família era grande, tive nove tios, por parte do meu pai e sete tios por parte da minha mãe.
Na volta para casa, meus pais ainda traziam frutas, ovos e leite. Nos domingos, a família toda ia à missa e barraquinhas da Igreja. Minha família era grande, tive nove tios, por parte do meu pai e sete tios por parte da minha mãe.
Na minha infância brincava nos riachos, andava de barco, brincava de pique, passando de uma árvore para outra. Fazíamos “cozinhadinho” no fogão improvisado, com quatro tijolos, e ali colocava fogo. Cozinhávamos arroz e verduras.
Papai matava passarinhos e pombas e eu e meus primos fazíamos um belo jantar. Pulava corda, brincava de roda. Todos os dias, à noite, sentávamos na cozinha de casa para ouvir as estórias, enquanto vovó assava broa e fazia biscoito frito. Quando estava frio, ou chovendo, meu avô colocava no meio da cozinha uma lata com brasa para esquentar e dava milho de pipoca para jogarmos no fogo. Comíamos a pipoca que estourava na brasa.
Papai matava passarinhos e pombas e eu e meus primos fazíamos um belo jantar. Pulava corda, brincava de roda. Todos os dias, à noite, sentávamos na cozinha de casa para ouvir as estórias, enquanto vovó assava broa e fazia biscoito frito. Quando estava frio, ou chovendo, meu avô colocava no meio da cozinha uma lata com brasa para esquentar e dava milho de pipoca para jogarmos no fogo. Comíamos a pipoca que estourava na brasa.
O vovô ia contando as estórias de assombração, cada uma pior que a outra! No intervalo ele pedia para um de nós abrir a porta ou buscar alguma coisa no quarto. Ninguém ia! Se ele ameaçasse levantar e sair, todos iam atrás, com medo. Ele gostava muito de contar estórias sobre a morte. Dizia ele que a morte era uma “moça muito bonita” e que, quando ela chegava em casa de alguém, deixava um morto. Um dia ela mandou avisar um fazendeiro que ia fazer uma visita, marcando a data. Então, o fazendeiro, chamado Adolfo, pediu à esposa que fizesse uma broa e um bule de café, e entrou numa mala, com a merenda, pois a visita podia demorar. Nisto a “moça bonita” chegou e bateu à porta, perguntando onde estava Adolfo. A esposa respondeu: “Ele viajou, vai demorar uns dias”. Então a “moça” disse: “Não importa, onde ele estiver minha visita está feita”. E foi embora. A esposa correu e abriu a mala e falou: “Adolfo, pode sair, a moça já foi embora!”. E para espanto da mulher, Adolfo estava duro e frio! Eu adorava os contos de vovô, suas estórias de assombração, que apareciam em fazendas, assim como da “mula sem cabeça” e “saci pererê”.
Com minha avó aprendi a fazer quitandas, bordados, bonecas e bruxas de pano. Assim como aprendi a cozinhar com minha mãe. Aos sete anos já ia para cozinha ajudá-la no almoço. Aprendi todas as tarefas domésticas com ela. Dos meus avós não me esqueço, devo a eles tudo que aprendi. Assim como meus pais, que aprendi a ter respeito e obediência pelas pessoas, além do afeto que me dedicaram que não me esquecerei.
Capítulo II
Trajetória Escolar
Aos sete anos de idade, em 1953, entrei para a escola, direto para o primeiro ano. A escola se chamava Tomé Portes del-Rei, no bairro de Matozinhos. Minha professora se chamava Conceição Guimarães, era uma idosa que falava pouco, brava e que sempre levava para a aula uma vara de marmelo, com o intuito de amedrontar os alunos. Eu era uma aluna obediente, calada e que aprendia com facilidade, costumava levar os deveres para casa e sempre tirava boas notas. Os coleguinhas diziam que a professora “puxava meu saco”.
Estudei o primeiro, segundo, terceiro e quarto anos, o que hoje é chamado de “ensino fundamental”. Não faltava à aula e aprendi muito com a professora Conceição e as outras professoras também. Meu sonho era ser professora, mas não pude realizá-lo porque meus pais não tinham recursos. Para eles “estudo era coisa de homem”, e mulher tinha que aprender os afazeres domésticos, para que pudesse ajudar em casa.
Eu sentia saudades das aulas, dos colegas, das brincadeiras, dos teatros, da bandeira hasteada no pátio da escola, do Hino Nacional e das orações antes da aula. Aprendi muito, o pouco tempo que estudei. Tudo que sei agradeço a estas professoras. Foi pouco tempo, mas muito aproveitado. Quando saí da escola tive que ajudar minha mãe nos afazeres da casa, como lavar roupa, cozinhar, limpar, assim como a cuidar dos irmãos menores. Não tive adolescência. Meus pais não me deixavam sair. Somente com eles, mesmo assim era visitar casa dos parentes, avós, assim como ir a barraquinhas da igreja e à missa.
Capítulo II
Meu primeiro trabalho
Com quatorze anos fui trabalhar na fábrica de fiação e tecelagem Sanjoanense, até os dezoito anos. Era um contrato somente para menores e recebíamos meio salário, que era de C$ 2,40. Eu ficava muito feliz ao receber meu salário, mas tinha que entregá-lo em casa, para ajudar nas despesas. Depois dos 18 anos, fui trabalhar na fábrica de chuteiras, costurando-as.
Tive um amigo da época que trabalhei nessa fábrica, e que tenho amizade até hoje. Ele se chama Geraldo Sapateiro. Era ele quem montava as chuteiras e no final de semana o dono da fábrica, chamado Amauri, colocava-as num saco e levava para Barra Mansa e Volta Redonda para vendê-las. Nessa fábrica trabalhei por dois anos, ganhando C$ 4,00. Depois fui chamada para trabalhar num armazém chamado “Casa Bassi”.
Era uma espécie de supermercado, que vendia de tudo. O dono se chamava “Sr. Nonô”. Ele me chamou e disse que precisava de uma moça como eu para trabalhar no caixa do armazém, anotar e somar as cadernetas dos clientes. Eu disse pra ele que não podia porque já trabalhava costurando chuteiras. Ele me perguntou quanto eu ganhava, eu respondi C$ 4,00. Ele disse que me pagaria C$ 6,00. Fiquei feliz e disse a ele que daria a resposta no outro dia. Ai pensei que C$ 2,00 a mais, eu poderia ajudar mais ainda em casa. Marquei o dia e fui trabalhar. Saí de lá somente para me casar. Após meu casamento continuei trabalhando, cuidando da minha casa e com minha sogra, na “Boutique Diva”. Ao se aposentar, ela me passou o negócio e então me tornei comerciante, até me aposentar.
Capítulo IV
Vida afetiva
Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, mas não nos deixa só
porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso.
Charles Chaplin
Neste meio tempo comecei a namorar. Namorei bastante, porém nada muito sério, pois não podia sair de casa para passear com o namorado. Só podia namorar em casa. Tinha horário de 19h30 às 21h, e ainda meus pais vigiavam o tempo todo. Não conversava certos assuntos com meus pais. Eles nem me explicaram sobre sexo. Não existia diálogo. Fiquei menstruada com 14 anos e escondi de minha mãe por três meses, até que um dia ela me pegou lavando roupa e descobriu. Não me disse nada sobre isso. Quando fiz vinte anos fui com minha mãe numa Boutique comprar um casaco para mim.
A dona da Boutique se chamava Diva. Quando eu experimentava o casaco, dona Diva me perguntou se eu tinha namorado. Eu falei que não e ela me disse que tinha um filho chamado Jairo, que iria me apresentar. Ela me disse que eu tinha um jeito bom para namorá-lo. Chamou-o e nos apresentou. Conversei com ele um pouco e à noite ele foi até minha casa e me pediu em namoro. Meus pais impuseram regras ao namoro. Tinha horário e não podíamos sair sozinhos, somente com minha mãe ou meu irmão Diomar. Todo lugar que íamos levávamos ele. Namoramos um ano e ficamos noivos. Namorávamos em casa e, de vez em quando, íamos ao cinema. Se ele chegasse até minha casa e eu estivesse fazendo algum serviço doméstico ele assentava no sofá e me esperava terminar. Casei nova, com 22 anos, pois queria ter mais liberdade.
Casamos dia 12 de Junho de 1968, no civil e 06 de Julho na igreja. Casei sem saber de nada. Minha mãe não me explicava nada, o pouco que sabia aprendi com amigas no trabalho. Casei virgem, mas fui muito feliz. Meu marido era uma pessoa de boa formação, esclarecida, educada e inteligente. Era filho único e militar das Forças Armadas.
Meus sogros me tratavam muito bem, diziam que eu era a filha que não tiveram. Eu tinha muita liberdade, passeava, viajava e fazia coisas que nunca tivera a oportunidade de fazer, como colocar biquíni e maiô para ir nadar. Assim como ir a festas e ao cinema. Sempre fiz tudo o que queria, pois meu marido confiava em mim. Meus sogros gostavam muito de mim, pois combinava e respeitava-os muito, éramos muito amigos. Tive quatro filhos: um homem e três mulheres (Glênio, Glauciemar, Gleicimara e Gleicilene). Ótimos filhos, meus amigos e minha paixão. Todos estudaram e se formaram em curso superior.
Capítulo V
Seguindo em frente
Algumas pessoas marcam a nossa vida para sempre,
umas porque nos vão ajudando na construção,
outras porque nos apresentam projetos de sonho
e outras ainda porque nos desafiam a construí-los.
Com 37 anos de casada, meu marido faleceu ao fazer uma cirurgia de coração. Foi um momento muito difícil da minha vida, pois perdi o chão, mas, nunca me deixei desanimar. Junto com meus filhos eu tive forças para seguir em frente.
Dei continuidade a minha vida como era antes, reunindo minha família, comemorando aniversários, natal, ano novo, formaturas... Qualquer coisa é motivo para celebrar a vida. Minha família é muito animada e alegre. Este ano vieram meus dois netinhos, Bernardo e Amélie, que me enchem a vida de alegria. Tenho dois genros, David e Orlando, que considero como filhos, casados com minhas duas filhas Gleicimara e Glauciemar. Para completar entrei para a Terceira Idade da UFSJ e frequento reuniões, palestras e passeios. Gosto muito de participar desse projeto e, principalmente, de ter a oportunidade de aprender mais e fazer novos amigos.
100 g de coco ralado
Boas lembranças: sabores de Infância
No arquivo feliz da infância, permanecem os registros de sabores, aromas e prazerosas lembranças das guloseimas que marcaram a nossa infância, como a pipoca preparada pelo meu avô, a broa assada e biscoito fritos preparados pela vovó, que acompanhavam as sessões de contação de história no calor aconchegante da cozinha. Além de nossos “cozinhadinhos” à maneira de banquete, feito no fogão improvisado, com quatro tijolos e muita imaginação.
Esse delicioso sabor de infância se estende às guloseimas vendidas nas barraquinhas nas festas religiosas de Matosinhos, com seus cheiros de festa animada, as cores das frutas coloridas: maçãs do amor, uvas... Todas essas cores, sabores e cheiros me acompanharam.
Minhas receitas favoritas
Bolo de chocolate da vovó
Ingredientes
6 ovos
6 colheres (sopa) de chocolate em pó
2 colhes (sopa) de manteiga
8 colheres (sopa) de açúcar refinado
1 colher (sopa) rasa de pó Royal
Cobertura
1 lata de creme de leite
4 colheres (sopa) de chocolate em pó
2 colheres (sopa) de acúcar
Preparo
Bata todos os ingredientes no liquidificador, despeje na tigela e acrescente o coco ralado e o pó Royal. Misture bem e despeje em uma forma, untada e polvilhada com farinha.
Recheio
Misture todos os ingredientes e leve ao fogo para engrossar e jogue por cima e bolo e cubra com chocolate granulado.
Bolo de milho especial
Ingredientes
2 espigas de milho verde ralada
1 lata de leite condensado
1 colher (sopa) de manteiga
3 ovos inteiros
Preparo
Bata no liquidificador todos os ingredientes e despeje na tigela e acrescente 200 gramas de coco ralado, uma colher de sopa de pó Royal. Misture bem e coloque em forma de buraco polvilhada com farinha e leve para assar em forno quente.
Biscoito quebra-quebra
1 ½ de polvilho de polvilho azedo
½ quilo de margarina
5 ovos
1 pitada de sal
1 prato fundo de açúcar refinado
1 pires de farinha de trigo
2 colherzinhas (café) de pó Royal
Misturar tudo e sovar bem, enrolar e levar para assar em tabuleiro untado.
Antônia Rosa de Oliveira
Foi Assim... A dor e a delícia de viver Por Antônia Rosa de Oliveira |
Dedico estas páginas de vida à minha família, razão do meu viver, das minhas lutas e das minhas alegrias.
Capítulo I
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.
Cora Coralina
Minha Família
Nasci, na Conferência em Resende Costa , no dia 3 de maio de 1933. Minha mãe se chamava Maria Rosa Sales, meu pai, que não cheguei a conhecer, pois abandonou minha mãe, quando ela engravidou de mim, segundo dizem, se chamava José Francisco.
Minha mãe era empregada doméstica e precisava trabalhar e não tinha como cuidar de mim, então, com sete meses, passei a morar com a minha avó, e minha mãe veio com meu irmão mais velho, Onofre Rosa Sales, para São João del-Rei.Significado do nome
Origem do nome Antônia = Latim. Significado: amiga inestimável.
De fato sou amiga de quem me quer por amiga. Dizem que as pessoas cujo nome começa com a letra A estão sempre prontas a se aventurar, que são muito cheias de energia, possuem uma personalidade ativa e decidida. Não vê graça numa vida sem desafios. Acho que tem a ver comigo sim, pois a minha vinda ao mundo já foi um desafio. Sempre enfrentei as adversidades com determinação, sem abaixar a cabeça.
Meninice em Resende Costa
Vivi minha infância e adolescência em Resende Costa , cidade da qual tenho boas e más lembranças.
Trata-se de uma cidade pequena, porém muito bonita. Um dos pontos turístico de lá são as lajes, de onde se pode observar um lindo por do sol. Além das festas famosas, a cidade é um ótimo lugar pra quem quer se divertir ou comprar artesanatos feitos no tear.
Batizado
Fui batizada na antiga Matriz de Resende Costa, por Jesus Mendonça e Marta Beatriz. Minha madrinha foi muito boa para mim. No meu aniversário e, ela sempre aparecia com presentes, como vestida ou tecida para confeccionar roupas para mim. Eu adorava ganhar presentes. Sonhava em ganhar uma boneca de louça, mas só ganhava aquelas de pano, que se pareciam com uma bruxa. Tinham os cabelos de fios, eu puxava até arrancá-los. Aí eu ficava de castigo por conta disso. Às vezes, levava umas boas palmadas. Eu não era uma criança muito quieta não. Eu aprontava bastante.
Antiga Matriz de Resende Costa. Em 12 de dezembro de 1749, foi inaugurada a primeira capela do arraial da Laje. Ao seu redor construíram-se oito casas pertencentes a fazendeiros que vinham para o arraial em ocasiões de festas religiosas. As primeiras famílias transferidas para aquela região foram as de Resende Costa, Alves Preto, Pedroso de Morais, Pinto e Lara, achando-se elas ligadas entre si por laços de parentesco. Em 3 de abril de 1840, foi criado o distrito, que recebeu o nome de Nossa Senhora da Penha do Arraial da Laje, em homenagem à sua padroeira. A expressão da Laje se explica pela posição topográfica do município, pois a cidade está construída em cima de gigantesca pedra, que se salienta em três picos mais elevados.
Foto disponível emhttp://kigracinhartesanato.wordpress.com/category/pagina-inicial/fotos-de-resende-costa/.Fotos de André Luís Vieira (http://mw2.google.com/mw-panoramio/photos/small/7485637.jpg)
Veja mais sobre a cidade em: http://www.cidadeshistoricas.art.br/multimidia.php
Capítulo II
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Fernando Pessoa
Vida escolar
Na escola, de primeiro, as turmas eram misturadas ali no Grupo Escolar Assis Resende. Era o 1º ano junto com o 2º e o 3º. Tinha professora que castigava aluno botando prá ajoelhar no milho. Mas o castigo mais comum que eu me lembro era ficar em pé na porta, quando tomava chuva e chegava molhada, tremendo de frio, tinha de ficar em pé na porta até a professora deixar entrar.
Essa professora era muito bonita, com cabelos louros, muito compridos escorrendo pelas costas ou preso em tranças. Mas o que ela tinha de bonita, tinha de chata, pelo menos comigo. As professoras não gostavam muito de gente de cor escura como eu, elas quase não davam atenção, a não ser para colocar de castigo. Lembro-me que, certa vez, umas meninas chatas que implicavam comigo levaram piolho na caixa de fósforo e colocaram na minha cabeça, aí comecei a coçar e a professora me xingou de piolhenta. Mas eu não era piolhenta, minha tia e minha vó, sempre cuidavam de minha higiene. Minha tia até mandou um bilhetinho para essa professora dizendo que cuidava de mim, que ela não se preocupasse. Essa professora parece não ter gostado de eu ter falado que ela me chamava de piolhenta.
Um dia, ela estava tomando a lição, e vi piolho passeando nas tranças dela, aí eu disse:
- a senhora me chamou de piolhenta, mas isso passeando na sua trança é piolho.
Ela ficou sem graça e, para se vingar, me mandou ficar ajoelhada sobre o milho, na sala da diretora, dona Ruth. Isso me deixava muito aborrecida, pois era uma injustiça! Minha madrinha, que era professora na mesma escola, me perguntou por que eu estava triste, aí contei para ela. Ela conversou com a diretora. Depois disso, as coisas melhoraram um pouco. Estudei até o segundo ano. Tinha muita vontade de aprender, mas ninguém me ensinava, na escola a professora não dava muita atenção para as meninas de pele escura, ela dava mais atenção para filhos de pessoas de posse. Lá em casa não tinha ninguém para ensinar, então, a gente ia ficando reprovada até desistir.
Dessa experiência escolar, pude sentir a dor do preconceito contra as pessoas de cor e sem posses. Eu me sentia culpada por não conseguir aprender, a passar de ano. Se alguém tivesse paciência para me ensinar, acho que seria diferente.
Graças a Deus, as culpas e mágoas passam! O tempo cura tudo: as coisas ruins que aconteceram, os dramas que rolaram e as palavras que feriram...
Capítulo III
Contação de histórias: mistérios
As histórias que ouvia quando era criança me intrigavam e me metiam medo, porque eram contadas como se fossem verdadeiras e eu acreditava que realmente fossem.
Lembro-me de minha vó contar de duas antigas moradoras, duas mulheres que saiam à noitinha para rezar em um cruzeiro. Acho que era promessa, para livrar alguém de uma maldição, provavelmente o falecido que jazia sob o cruzeiro. Ninguém se atrevia a andar por aquelas paragens, após o por-do-sol, pois o local era assombrado, pela alma penada do morto e pelo Coisa Ruim que apossou ou queria se apossar da alma do dito cujo. Não sei por que as tais mulheres iam rezar lá, talvez para livrar a alma do falecido de alguma maldição, de alguma dívida com o Demo... Só sei que todos os dias, as duas saíam, no mesmo horário, com o terço na mão em direção ao tal cruzeiro. As pessoas avisaram que era muito perigoso, mas as duas não deram importância ao aviso, pois estavam protegidas.
Certa feita, dois vizinhos resolveram pregar uma peça nas duas, ficaram à espreita, quando as duas saíram, eles foram atrás e se esconderam numa moita e, enquanto elas estavam rezando, eles colocaram uma peneira na cabeça e se cobriram com um lençol branco. Já estava escuro e ventava muito. Quando as duas terminaram a rezação e se viraram, eles apareceram nas vestimentas fantasmais. O vento uivava, apagando as velas e deixando as duas despenteadas. Elas, muito assustadas, correram o mais que podiam em direção à cidade. As pernas bambas de pânico tremelicavam, uma gritava com a outra;
- corre comadre, que o bicho é feio,
A outra respondeu:
- sim, mas o que está montado na cabeça deles é mais feio ainda.
Quase sem fôlego, as duas corriam, mas os perseguidores corriam também e quando estavam prestes a alcançá-las, elas viram que estavam em frente a casa delas e bateram com o crucifixo na porta... Por um breve segundo, tudo se fez silêncio, logo após ouviu-se um estrondo medonho e um fedor infernal de enxofre. As duas entraram e trancaram a porta, deixando os assombradores, mais assombrados ainda, do lado de fora.
Capítulo IV
Ser feliz não é uma casualidade do destino e sim uma conquista de quem sabe sonhar e também lutar pelo sonho...
Nayra Christiny
Vida Afetiva
Então namorava escondido, mas nada sério. Tinha medo de um relacionamento afetivo com um homem, e um possível casamento. Quando conheci (nome) em setembro, namoramos algum tempo escondido. Depois o apresentei à minha mãe, que por sinal gostou dele e aí percebi que era diferente e que ia dar casamento e já comecei a preparar o enxoval.
Naquele tempo, tinha que alvejar sacos de açúcar, depois bordar e fazer bicos de crochê.
Casei-me dia 22 de abril de 1965, na Igreja São João Bosco. Foi um dia de muitas emoções. Logo fiquei grávida de minha filha Cláudia Cristina de Oliveira.
Não queria ficar grávida logo, mas naquela época não tinha muito como evitar. A gravidez traz mudanças na vida da gente, além de componente emocional envolvido, das mudanças do nosso corpo que nos deixam inseguras. Acho que ficamos mais inseguras e sensíveis, cheias de dúvidas, será que vai nascer perfeita? Será homem ou mulher? Como vou fazer para trabalhar? Foi uma sensação diferente, me senti mais responsável, ia ter que cuidar de alguém que dependia dos meus cuidados para sobreviver.
Procurei cuidar dela o melhor que pude até ela se casar. Hoje tenho uma netinha linda. Tenho a sensação de que criei bem a minha filha, de que cumpri meu dever de mãe. E pude sempre contar sempre com o apoio do meu marido, que é um grande companheiro e está ao meu lado até hoje.
Trabalho
Desde que me entendo por gente, sempre trabalhei em casa e fora como empregada doméstica e trabalho até hoje.
A vida continua
A vida mesmo não sendo muito fácil tem seus encantos. Nunca me senti a coitada e sempre lutei por uma vida melhor. Hoje continuo a luta, mas já colhi muitos frutos: tenho uma filha criada e uma netinha maravilhosa que me enche de felicidade.
Vivendo agora na terceira idade com a mesma vontade e sempre querendo melhorar a vida dos que me cercam. O programa da terceira idade é uma boa oportunidade de encontros, passeios e tem ensinado como viver melhor nessa tal de terceira idade.
Boas lembranças
As lembranças de minha vó são muito boas. Eu dormia no cantinho da cama dela, me sentia protegida e amparada. Ela cuidava de mim, mas também era brava.
Outras lembranças, mais recente, foram as desfile que fizemos, só com o pessoal da terceira-idade, foi muito legal. Foram momentos especiais para mim, estar na passarela, toda produzida, até me senti bonita. Depois todo mundo ficou comentando que desfilei bem. Vou guardas as fotos e as lembranças desses momentos.
Assinar:
Postagens (Atom)





